Uma analogia entre a história da navegação e a evolução da artroplastia do joelho
Quando você ouve a palavra navegação, provavelmente o que lhe vem à mente é a imagem de um navio no mar. E você não está errado: realmente há uma correlação entre a ciência de se conduzir um navio ao seu destino e esta nova tecnologia cirúrgica que vem se mostrando extremamente útil e eficaz.
Eu escolhi explicar o papel e a importância do desenvolvimento da navegação cirúrgica através da história de como os seres humanos venceram o desafio de se localizar no espaço. Não é a maneira tradicional de se escrever um texto sobre medicina, mas vale o risco, você verá.
A necessidade humana de se localizar no espaço
As primeiras viagens de grupos humanos, provavelmente, eram sem um rumo definido. Com o passar do tempo, porém, ao vagar pelo mundo, estes grupos iam identificando locais com recursos importantes para a sobrevivência. Alguns lugares onde a caça era mais abundante, em determinada época, outros lugares nos quais poderiam conseguir materiais adequados para a fabricação de ferramentas, e outras coisas assim.
Os deslocamentos já não seriam mais aleatórios, pois agora eles precisavam saber o caminho para retornar para aqueles locais importantes em recursos, quando necessário. Nossos antepassados necessitavam aprender a se localizar no espaço.
Das referências terrestres às estrelas

Imagina-se que o modo primitivo de se localizar no espaço utilizava pontos de referência, tais como montanhas, rios e outros acidentes geográficos, além da posição do sol. Acredito que este método de localização já foi um avanço e tanto, porém, o ser humano é curioso e quer sempre ir mais longe.
Quanto mais se anda, mais a paisagem muda e ela pode, até mesmo, se tornar monótona. O que fazer ao se deparar com grandes campos, ou mesmo desertos, nos quais não há pontos de referência? Sem pontos de referência na terra, foi necessário olhar para o céu: as estrelas eram o caminho.
Das grandes navegações à precisão
E o ser humano foi se espalhando pelo mundo, desenvolvendo métodos de se orientar em suas jornadas pela terra firme e até através da água, em rios, lagos e no mar. Neste ponto a ciência e a arte de se orientar no espaço vão ganhar o nome pelo qual as conhecemos hoje: navegação.
Quem não se recorda das grandes navegações portuguesas e espanholas? O descobrimento das Américas e do caminho marítimo para as Índias? Pois é, conquistar o planeta, de vez, só foi possível aperfeiçoando cada vez mais os sistemas de orientação através de referências. Novas ferramentas criadas, tais como a bússola e o astrolábio — uma engenhoca que aumentava a precisão da orientação através das estrelas — tornaram a tarefa de saber onde se está e para onde ir cada vez mais confiável e eficaz.
Navegar é preciso: a busca pela exatidão
“Navegar é preciso, viver não é preciso”. Assim disse o poeta Fernando Pessoa, ao falar da epopeia do povo português através do mar. Pode-se especular sobre diversos significados ocultos nesta frase, mas, sem dúvida, a referência mais óbvia é relativa à precisão como exatidão, e não como necessidade.
Navegar é encontrar o caminho correto. E assim, cada vez mais precisa, foi se tornando a navegação. O surgimento de técnicas e ferramentas nos levou a navegar até para fora do planeta.
Do mundo exterior ao interior do corpo humano
Até aqui, tratei dos desafios que o ser humano enfrentou para se localizar e se orientar no cenário à sua volta. Da mesma forma que a humanidade necessitou desenvolver conhecimento e técnicas para navegar no “mundo exterior”, também o fez para navegar no “mundo interior”, isto é, no interior do corpo humano.
Como na história dos deslocamentos humanos, os médicos iniciaram sua jornada com referências locais da anatomia do corpo humano. Onde cortar para encontrar um órgão que necessitava ser removido era uma tarefa que dependia do senso de proporções do aparelho visual do cirurgião.
Os desafios crescentes da cirurgia moderna
Claro que o desenvolvimento da cirurgia levou a desafios cada vez mais complexos. Como localizar e retirar um pequeno tumor, do tamanho de um feijão, dentro do crânio, ou como puncionar um nódulo menor que uma ervilha na mama?
Para o espírito humano, quanto maiores as dificuldades, mais brilhantes as soluções. Máquinas que permitiam enxergar o interior do corpo, começando pelas radiografias, foram surgindo. O corpo humano foi sendo mapeado milimetricamente, mas alguns obstáculos ainda persistiam.
O desafio específico da prótese de joelho
Um destes obstáculos é relativo à minha especialidade: substituir joelhos desgastados por próteses que possam reproduzir, com precisão, o funcionamento de uma articulação normal.
Desde a década de 1960, desenvolveu-se toda uma área de conhecimento envolvendo desde a anatomia até a metalurgia, que possibilitou trocar uma articulação desgastada e dolorosa por uma prótese.
Como funciona a artroplastia do joelho
O método de execução da prótese de joelho — cujo nome técnico é artroplastia do joelho — é fácil de se entender: as superfícies desgastadas são retiradas com o auxílio de uma serra especial, os ligamentos e tendões são liberados e relaxados, corrigindo-se deformidades, e são implantadas peças metálicas que substituem o tecido ósseo retirado.
Entre essas peças metálicas, coloca-se uma espécie de amortecedor de plástico ultra resistente, e então a incisão cirúrgica é fechada com pontos de sutura.
Por que a cirurgia é tão complexa

Parece fácil, não? Mas é extremamente complicado. Retirar somente o mínimo necessário de tecido ósseo, corrigir deformidades articulares, evitar tendões ou ligamentos tensos ou frouxos demais, posicionar os implantes na angulação mais adequada para a estrutura corporal do paciente — e tudo isso sem “abrir” demais a incisão cirúrgica — exige, além de experiência, um elevado grau de precisão e perfeccionismo do cirurgião.
Onde a navegação cirúrgica faz a diferença
É aí que a navegação cirúrgica brilha. Através de uma tecnologia que envolve emissão e captação de raios infravermelhos, é possível reproduzir em uma tela a anatomia da articulação do paciente, em tempo real, durante a realização da operação.
O cirurgião pode localizar todos os detalhes da anatomia daquele paciente, avaliar a tensão dos ligamentos e tendões e até simular cortes ósseos e liberações, identificando a melhor estratégia para cada caso.
Além disso, a navegação permite orientar os instrumentos de corte ósseo com extrema precisão, sem depender apenas de referências anatômicas visuais, levando em consideração também a posição de outras articulações relacionadas ao joelho, como o quadril e o tornozelo. Isso faz com que a função mecânica da prótese implantada seja mais adequada à anatomia específica daquele paciente.
Benefícios da navegação na prótese de joelho
As vantagens da realização de próteses de joelho com auxílio da navegação cirúrgica são várias. Entre elas, destacam-se:
- cortes ósseos com maior exatidão e menor perda de tecido ósseo saudável;
- obtenção de alinhamentos articulares com melhor vantagem biomecânica;
- maior equilíbrio no tensionamento dos ligamentos, aumentando a estabilidade articular.
Esses fatores se traduzem em próteses com função cada vez mais próxima à de um joelho saudável, mais duráveis e menos sujeitas a complicações e falhas.
Conclusão
Essa foi a jornada da navegação, pelo menos até aqui: da Terra para as estrelas e, depois, de volta ao corpo humano — agora com precisão.
📌 Para quem este texto é indicado?
Este texto é indicado para pessoas que desejam compreender, de forma clara e acessível, como a tecnologia de navegação cirúrgica pode contribuir para maior precisão e melhores resultados na cirurgia de prótese do joelho.


